"Todo jardim começa com um sonho de amor. Antes que qualquer árvore seja plantada, ou qualquer lago seja construído é preciso que as árvores e os lagos tenham nascido dentro da alma.Quem não tem jardim por dentro, não planta jardim por fora. E nem passeia neles". Rubem Alves

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

O Corvo - Edgar Allan Poe

Art by : * Rene Magritte *, 1948



Goodbye 2015
   

 O CORVO -    * Edgar Allan Poe*
 com tradução de *Fernando Pessoa*


Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de algúem que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais."

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais".

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
Isso só e nada mais.

Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
"É o vento, e nada mais."

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."
Disse o corvo, "Nunca mais".

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome "Nunca mais".

Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais".
Disse o corvo, "Nunca mais".

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
"Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
Era este "Nunca mais".

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele "Nunca mais".

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!

Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
"Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ância e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,


Libertar-se-á... nunca mais!




The Raven

BY Edgard Allan Poe
Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary,
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore—
    While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,
As of some one gently rapping, rapping at my chamber door.
“’Tis some visitor,” I muttered, “tapping at my chamber door—
            Only this and nothing more.”

    Ah, distinctly I remember it was in the bleak December;
And each separate dying ember wrought its ghost upon the floor.
    Eagerly I wished the morrow;—vainly I had sought to borrow
    From my books surcease of sorrow—sorrow for the lost Lenore—
For the rare and radiant maiden whom the angels name Lenore—
            Nameless here for evermore.

    And the silken, sad, uncertain rustling of each purple curtain
Thrilled me—filled me with fantastic terrors never felt before;
    So that now, to still the beating of my heart, I stood repeating
    “’Tis some visitor entreating entrance at my chamber door—
Some late visitor entreating entrance at my chamber door;—
            This it is and nothing more.”

    Presently my soul grew stronger; hesitating then no longer,
“Sir,” said I, “or Madam, truly your forgiveness I implore;
    But the fact is I was napping, and so gently you came rapping,
    And so faintly you came tapping, tapping at my chamber door,
That I scarce was sure I heard you”—here I opened wide the door;—
            Darkness there and nothing more.

    Deep into that darkness peering, long I stood there wondering, fearing,
Doubting, dreaming dreams no mortal ever dared to dream before;
    But the silence was unbroken, and the stillness gave no token,
    And the only word there spoken was the whispered word, “Lenore?”
This I whispered, and an echo murmured back the word, “Lenore!”—
            Merely this and nothing more.

    Back into the chamber turning, all my soul within me burning,
Soon again I heard a tapping somewhat louder than before.
    “Surely,” said I, “surely that is something at my window lattice;
      Let me see, then, what thereat is, and this mystery explore—
Let my heart be still a moment and this mystery explore;—
            ’Tis the wind and nothing more!”

    Open here I flung the shutter, when, with many a flirt and flutter,
In there stepped a stately Raven of the saintly days of yore;
    Not the least obeisance made he; not a minute stopped or stayed he;
    But, with mien of lord or lady, perched above my chamber door—
Perched upon a bust of Pallas just above my chamber door—
            Perched, and sat, and nothing more.

Then this ebony bird beguiling my sad fancy into smiling,
By the grave and stern decorum of the countenance it wore,
“Though thy crest be shorn and shaven, thou,” I said, “art sure no craven,
Ghastly grim and ancient Raven wandering from the Nightly shore—
Tell me what thy lordly name is on the Night’s Plutonian shore!”
            Quoth the Raven “Nevermore.”

    Much I marvelled this ungainly fowl to hear discourse so plainly,
Though its answer little meaning—little relevancy bore;
    For we cannot help agreeing that no living human being
    Ever yet was blessed with seeing bird above his chamber door—
Bird or beast upon the sculptured bust above his chamber door,
            With such name as “Nevermore.”

    But the Raven, sitting lonely on the placid bust, spoke only
That one word, as if his soul in that one word he did outpour.
    Nothing farther then he uttered—not a feather then he fluttered—
    Till I scarcely more than muttered “Other friends have flown before—
On the morrow he will leave me, as my Hopes have flown before.”
            Then the bird said “Nevermore.”

    Startled at the stillness broken by reply so aptly spoken,
“Doubtless,” said I, “what it utters is its only stock and store
    Caught from some unhappy master whom unmerciful Disaster
    Followed fast and followed faster till his songs one burden bore—
Till the dirges of his Hope that melancholy burden bore
            Of ‘Never—nevermore’.”

    But the Raven still beguiling all my fancy into smiling,
Straight I wheeled a cushioned seat in front of bird, and bust and door;
    Then, upon the velvet sinking, I betook myself to linking
    Fancy unto fancy, thinking what this ominous bird of yore—
What this grim, ungainly, ghastly, gaunt, and ominous bird of yore
            Meant in croaking “Nevermore.”

    This I sat engaged in guessing, but no syllable expressing
To the fowl whose fiery eyes now burned into my bosom’s core;
    This and more I sat divining, with my head at ease reclining
    On the cushion’s velvet lining that the lamp-light gloated o’er,
But whose velvet-violet lining with the lamp-light gloating o’er,
            She shall press, ah, nevermore!

    Then, methought, the air grew denser, perfumed from an unseen censer
Swung by Seraphim whose foot-falls tinkled on the tufted floor.
    “Wretch,” I cried, “thy God hath lent thee—by these angels he hath sent thee
    Respite—respite and nepenthe from thy memories of Lenore;
Quaff, oh quaff this kind nepenthe and forget this lost Lenore!”
            Quoth the Raven “Nevermore.”

    “Prophet!” said I, “thing of evil!—prophet still, if bird or devil!—
Whether Tempter sent, or whether tempest tossed thee here ashore,
    Desolate yet all undaunted, on this desert land enchanted—
    On this home by Horror haunted—tell me truly, I implore—
Is there—is there balm in Gilead?—tell me—tell me, I implore!”
            Quoth the Raven “Nevermore.”

    “Prophet!” said I, “thing of evil!—prophet still, if bird or devil!
By that Heaven that bends above us—by that God we both adore—
    Tell this soul with sorrow laden if, within the distant Aidenn,
    It shall clasp a sainted maiden whom the angels name Lenore—
Clasp a rare and radiant maiden whom the angels name Lenore.”
            Quoth the Raven “Nevermore.”

    “Be that word our sign of parting, bird or fiend!” I shrieked, upstarting—
“Get thee back into the tempest and the Night’s Plutonian shore!
    Leave no black plume as a token of that lie thy soul hath spoken!
    Leave my loneliness unbroken!—quit the bust above my door!
Take thy beak from out my heart, and take thy form from off my door!”
            Quoth the Raven “Nevermore.”

    And the Raven, never flitting, still is sitting, still is sitting
On the pallid bust of Pallas just above my chamber door;
    And his eyes have all the seeming of a demon’s that is dreaming,
    And the lamp-light o’er him streaming throws his shadow on the floor;
And my soul from out that shadow that lies floating on the floor
            Shall be lifted—nevermore!


quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Fiódor Mikhailovich Dostoiévski

_Ilya_Glazunov_-_Portrait_of_Dostoevsky__Paris__1968




"Na minha opinião, se o diabo não existe, e sim terá sido criação do homem, 
este o criou a sua imagem e semelhança."
in 'Os Irmãos Karamazov'


"O ser humano é tão apaixonado pelo sistema e pela conclusão abstrata, que é capaz de fazer-se de cego e surdo somente para justificar sua lógica."
 in 'Memórias do Subsolo'


Há no povo uma dor silenciosa e paciente; entra em si mesma e se cala. Mas há outra que se expõe: manifesta-se por lágrimas e se expande em lamentações. Não é mais ligeira que a dor silenciosa. As lamentações só se acalmam, roendo e dilacerado o coração. Semelhante dor não quer consolações, repasta-se com a idéia de ser extinguível. As lamentações são apenas a necessidade de irritar cada vez mais a ferida."
in 'Os Irmãos Karamazov'


"O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Mas é isso o que tememos: o não ter certezas. Por isso trocamos o voo por gaiolas. 
As gaiolas são o lugar  onde as certezas moram."
in 'Os Irmãos Karamazov'

"O céu estava tão cheio de estrelas, tão luminoso, que quem erguesse os olhos para ele se veria forçado a perguntar a si mesmo: será possível que sob um céu assim possam viver homens irritados e caprichosos?"
 in 'Noites Brancas'

"Destruindo-se nos homens a fé em sua imortalidade, neles se exaure de imediato não só o amor como também toda e qualquer força para que continue a vida no mundo. E mais: então não haverá nada amoral, tudo será permitido, até a antropofagia."
  in 'Os Irmãos Karamazov'


“A verdadeira dor, a que nos faz sofrer profundamente, às vezes torna sério e constante até um homem que não reflete; o espírito pobre se torna mais inteligente após uma dor.”


"Existem nas recordações de todo homem coisas que ele só revela aos seus amigos. Há outras que não revela mesmo aos amigos, mas apenas a si próprio, e assim mesmo em grande segredo. Mas também há, finalmente, coisas que o homem tem medo de desvendar até de si próprio; e, em cada homem honesto, acumula-se um número bastante considerável de coisas do gênero. E acontece até o seguinte: quanto mais honesto é o homem, mais coisas assim ele possui. Pelo menos, eu mesmo só recentemente me decidi a lembrar as minhas aventuras passadas e, até hoje, sempre as contornei com alguma inquietação. Mas agora, que não lembro apenas, mas até mesmo resolvi anotar, agora quero justamente verificar: é possível ser absolutamente franco, pelo menos consigo mesmo, e não temer a verdade integral? Observarei a propósito: Heine afirma que uma autobiografia exata é quase impossível, e que uma pessoa falando de si mesma certamente há de mentir." 
in 'Memórias do Subsolo'


"O ser humano é tão apaixonado pelo sistema e pela conclusão abstrata, que é capaz de fazer-se de cego e surdo somente para justificar sua lógica.
 in 'Memórias do Subsolo'


"Ela não tardou a compreender que nós dois éramos seres diferentes, e que eu... era um enigma. Mas era isso precisamente o que eu queria, era isso o que eu procurava; parecer-lhe um enigma. Para obrigá-la a adivinhar este enigma, talvez eu não pudesse ter precedido mais estupidamente com ela do que precedi. [...] Eu estava sempre calado, sobretudo, quando estava ao seu lado, calava-me, até o dia de ontem. Por que me calava eu? Porque sou orgulhoso. Queria que ela me idolatrasse pela minha paixão... e era digno disso. Oh, eu sempre fui orgulhoso, sempre desejei tudo... ou nada! E precisamente por eu não querer uma miserável amostra de felicidade, mas uma felicidade completa." 
in 'Uma Doce Criatura'


Não, tenho uma vida apenas e nunca mais a terei, não quero, pois, esperar pela "felicidade universal". Quero viver por mim mesmo, se não é melhor não viver.
 in 'Crime e Castigo'
  

"Sou um homem ridículo. Agora já quase me têm por louco [...] Mas eu já não me aborreço por causa disso, agora já não guardo rancor a ninguém e gosto de toda a gente, ainda que se riam de mim... sim, senhor; agora, não sei por quê, mas sinto por todos os meus próximos uma ternura especial. Teria muito gosto em acompanhá-los no vosso riso... não precisamente nesse riso à minha custa, mas sim pelo carinho que me inspiram, se não me fizesse tanta pena vê-los." 
in 'O Sonho de Um Homem Ridículo'


"A tirania é um costume, possui a faculdade de desenvolver-se e degenera, finalmente, numa doença. E afirmo que o melhor dos homens pode embrutecer-se e embotar-se por efeito do hábito, até descer ao nível duma fera. O sangue e o poder embriagam, engendram o embrutecimento, a insensibilidade; tanto a inteligência como o sentimento acabam por achar isso natural e, por fim, aprazíveis as manifestações mais anormais. O homem e o cidadão morrem para sempre no tirano; é-lhe quase impossível regressar à dignidade humana, ao arrependimento, a uma nova vida. Além disso, o exemplo, a possibilidade de tal egoísmo faz aparecer também na sociedade um efeito nocivo: semelhante poder é sedutor. A sociedade que contempla com indiferença esse espetáculo está minada na base. Em resumo: o direito de impor castigos corporais, outorgado a um sobre o outro, é uma praga da sociedade, é um dos meios mais poderosos para aniquilar nela todo germe de civismo e a base completa para a sua dissolução inevitável e infalível."
 in 'Memórias da casa dos mortos'



"Eu chorava de verdade e, tendo aberto a segunda parte do romance, folhei-a ao acaso, procurando adivinhar algum sentido nas frases soltas, que lia de quando em quando. Era como se quisesse adivinhar o futuro, abrindo o livro ao acaso. Há momentos em que todas as forças da mente e da alma, numa tensão doentia, como que se inflamam com a chama brilhante da consciência, e então algo profético surge em sonho à alma abalada, que parece enlanguescida com o pressentimento do futuro, experimentando-o antecipadamente. E há uma grande vontade de viver, todo o nosso ser pede para viver, e, inflamado com a esperança mais ardente, mais cega, o nosso coração parece desafiar o futuro, com todo o seu mistério, com todo o desconhecido, ainda que em tempestades e tormentas, contanto que seja vida. O meu momento foi exatamente dessa natureza."
 in 'Niétotchka Niezvânova'

  
"Agora, perguntava-me de novo: amo-a? Ou melhor, respondi-me novamente, pela centésima vez, que a detestava. Sim, odiava-a! Havia momentos (sobretudo depois das nossas conversas) em que teria dado metade da minha vida para estrangula-la! Juro-o. Se tivesse sido possível, ainda há momentos, cravar-lhe no peito um punhal bem afiado, julgo que o teria empenhado de boa vontade."
in 'O Jogador'


"Sabe, por exemplo, que a amo até a demência, permite-me até falar-lhe da minha paixão, e naturalmente, não haveria um meio de expressar mais intensamente o seu desprezo por mim do que com esta permissão de lhe falar do meu amor, sem qualquer obstáculo ou contenção."
 in 'O Jogador'


"Tenta uma experiência e constrói um palácio. Equipa-o com mármore, quadros, 
ouro, pássaros do paraíso, jardins suspensos, todo o tipo de coisas…
E entra lá para dentro. Bem, pode ser que nunca mais desejasses sair de lá.
Talvez, de fato, nunca mais saísses de lá. Tudo está lá!
"Estou muito bem aqui sozinho!".
Mas, de repente — uma ninharia! O teu castelo é rodeado por muros,
e é-te dito: “Tudo isto é teu! Desfruta-o! Apenas não podes sair daqui!".
Então, creia-me, nesse mesmo instante quererás deixar esse teu
paraíso e pular por cima do muro. Ainda mais!
Todo esse luxo, toda essa plenitude, aumentará o teu sofrimento.
Sentir-te-ás insultado como resultado de todo esse luxo…
Sim, apenas uma coisa te falta: um pouco de liberdade!
Um pouco de liberdade e um pouco de liberdade."
in "O Movimento de Liberação"


"Acima de tudo, não minta para você mesmo. O homem que mente para ele mesmo e escuta sua própria mentira chega a um ponto que não sabe distinguir a verdade dentro dele ou ao redor dele, e então perde todo respeito por si mesmo e pelos outros. E não havendo respeito ele desiste de amar."
 in 'Os Irmãos Karamazov'


"É isso: tudo está ao alcance do homem e tudo lhe escapa,
em virtude de sua covardia...
Já virou até axioma.
Coisa curiosa a observar-se: que é que os homens temem acima de tudo?
- O que for capaz de mudar-lhes os hábitos: eis o que mais apavora...
Porém falo demasiado e, por isso, não faço nada.
Ou, talvez, devesse dizer que não faço nada porque falo muito.
Este mês, peguei a mania de monologar,
escondido durante dias inteiros, no meu canto,
imaginando... tolices."
 in Crime e castigo


Fiódor Mikhailovich Dostoiévski (1821-1881)


"Dostoiévski é o único psicólogo com quem tenho algo a aprender"
— disse o filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche.